sexta-feira, dezembro 30, 2005

Frio Aflige a Europa


Este ano o continente europeu tem passado por um inverno rigoroso, notícias veiculadas em diversos jornais retratam em muitos lugares a presença de temperaturas negativas e de nevascas. Segundo alguns climatologistas esse rigor no inverno tem suas causas ligadas às mudanças ocorridas nas correntes marinhas, principalmente, pela redução do volume de águas quentes que correm da zona intertropical em direção ao norte da Europa. Tal fato seria provocado pelas mudanças climáticas globais, uma vez que as correntes marinhas tornam o inverno europeu mais ameno. Em caso de confirmação das pesquisas atuais, a tendência é que os invernos seguintes sejam ainda mais rigorosos, com temperaturas cada vez mais baixas o que certamente provocara muitas mortes e prejuízos a economia.
Por outro lado, não podemos esquecer que o aquecimento global é provocado pelo aumento de gazes poluentes na atmosfera, sobretudo pelas nações mais industrializadas, incluindo nesse grupo os próprios países europeus e é claro os Estados Unidos, que até hoje se nega a assinar o protocolo de Kioto. Curiosamente, os Estados Unidos também tem sofrido com problemas ambientais ligados ao aquecimento global, sobretudo, os furacões oriundos da zona intertropical.
Para os leigos, vale ressaltar que tanto os furacões nos Estados Unidos, a onda de frio na Europa e as mudanças de temperatura bruscas em uma cidade como o Rio de Janeiro estão relacionados, fazendo parte de um sistema climática global, que guarda no seu interior diversas inter-relações. No entanto, fenômenos como as Tsunamis que ocorreram recentemente, não têm relação com as mudanças globais, pois são provocadas por movimentos tectônicos no assoalho submarino, ou seja, processos naturais diferentes.Por hora resta apenas a esperança de que ocorram em um curto espaço de tempo uma diminuição da emissão de gazes poluentes e que a opinião pública mundial cobre das autoridades nacionais a vontade política para isso.

sábado, dezembro 17, 2005

FAVELA - alegria e dor na cidade


Fiel ao propósito de estimular a reflexão sobre os problemas brasileiros em busca de soluções futuras, os amigos de luta e caminhada Jailson de Souza e Silva e Jorge Luiz Barbosa, lançaram na última quinta-feira (15/12/2005) o livro – Favela: alegria e dor na cidade. Uma obra importante para pessoas interessadas em construir uma cidade mais justa, democrática e participativa.
O livro descreve o processo de gênese das comunidades carentes em nossa cidade, percorrendo mais de 100 anos de história do Rio de Janeiro e do Brasil. Além disso, descreve de forma concisa e facilmente entendível o cotidiano de violência, pobreza e de manifestações culturais típicas dessa parte da cidade.
Outro ponto importante do livro diz respeito à relação de obras recomendadas para a leitura, que permite aos novos interessados pelo tema, um breve panorama do que tem sido pesquisado e produzido nos últimos anos.
Por fim, esta é mais uma obra que recomendo a quem se interesse pela construção de uma sociedade mais justa e democrática.

sexta-feira, dezembro 16, 2005

As mil e uma noites diretamente do Árabe


As mil e uma noites são provavelmente o único clássico da literatura árabe conhecido no Ocidente. Digo "conhecido" por ser um livro que conta com quantidade razoável de leitores cultos, não existindo apenas como título abstrato - caso do Alcorão, essa obra prodigiosa, que consegue ser citada sem ter sido lida. Contudo, há um fato curioso, pois o que citamos como um livro na verdade é uma compilação de contos árabes muito antigos.
Bem, mas porque falar das mil e uma noites, recentemente a Editora Globo deu início a publicação em seis volumes de toda a obra das mil e uma noites, mas não qualquer tradução, mas a obra original. Para os interessados terem uma idéia exata do que isso significa, as nossas edições eram meras traduções da obra publicada em francês por Antoine Gailand, no início do século XVIII. Nesta obra, não constava nem a história de Aladim, nem a de Simbá, nem a de Ali Babá, que segundo pesquisadores foi incorporada a obra original por Galland, não que essas lendas e/ou histórias não existissem mais não faziam parte do original.Recentemente, a Brasiliense publicou uma tradução da versão francesa realizada por René Khawam a partir do manuscrito original, ou antes, do manuscrito mais antigo, que é o de 1455, adquirido por Galland, eu tenho o prazer de ter essa coleção. Mas esse fato não se compara a ler uma tradução direta do árabe para a língua portuguesa, se bem que o mais interessante seria ler em árabe, mas isso em deixo pra depois.

quinta-feira, dezembro 08, 2005

Ginseng brasileiro poderia combater câncer

Um possível novo candidato a arma contra o câncer foi identificado por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP). Em análises de laboratório, a equipe constatou que extratos do ginseng brasileiro (Pfaffia paniculata) são capazes de promover a morte de células tumorais sob determinadas condições. No entanto, muitos estudos ainda são necessários até que a descoberta possa dar origem a um medicamento contra a doença.
Desde 2000, a equipe da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da USP trabalha com diversos modelos experimentais. Os primeiros estudos foram realizados com a raiz em pó do ginseng administradas a camundongos. Em seguida, foram feitos extratos alcoólicos da raiz, por meio de uma metodologia que consiste em aplicar álcool no pó da raiz da planta. “Durante os testes, verificamos que o primeiro extrato – o etanólico – provocava efeito nulo sobre as células tumorais”, esclarece a veterinária Márcia Nagamine, coordenadora da pesquisa, orientada pela professora Maria Lúcia Dagli. “Já os extratos derivados apresentaram efeitos opostos: enquanto o butanólico inibia a proliferação de tais células cancerígenas, o aquoso estimulava.” Os estudos mostraram maior sobrevida de camundongos portadores de tumor transplantável que receberam extrato butanólico da raiz. Quando se aplicou o mesmo extrato em culturas de células tumorais mamárias humanas, observou-se a morte das mesmas.
Apesar dos resultados animadores, a equipe não sabe ainda definir qual dos vários componentes presentes no extrato butanólico é o responsável pela a morte celular. Por enquanto, não se pode afirmar se há ou não efeitos colaterais, ou seja, se tal extrato ataca também as células saudáveis. É importante frisar que os estudos estão no começo e que será preciso esperar muitos anos até que um possível medicamento contra o câncer a base de ginseng possa se tornar uma realidade.

quarta-feira, dezembro 07, 2005

A espera da Pandemia

"Em algum momento, uma variante altamente letal e contagiosa do vírus da gripe se espalhará por todo o mundo, levando milhões de vidas - ou talvez apenas milhares. A epidemia global pode ocorrer daqui a poucos meses ou em muitos anos - mas é inevitável". Assim começa o brilhante artigo publicado pela excelente revista Scientific American Brasil sobre a possibilidade concreta de ocorrência de uma pandemia do vírus influenza, responsável pela popularmente conhecida crime aviária.Aconselho aos interessados ler o artigo, ele está disponível no site: http://www2.uol.com.br/sciam/

sexta-feira, dezembro 02, 2005

A National Geographic Society e a IBM estão dando início a uma pesquisa inovadora, que vai retraçar a história da migração da espécie humana.

O Projeto Genográfico (Genographic Project) vai usar análise sofisticada de amostras de DNA, em laboratório e computadorizada, de centenas de milhares de pessoas, incluindo representantes de populações nativas e representantes da sociedade em geral, para mapear o povoamento da Terra. Liderado por Spencer Wells, PhD, explorador-residente da National Geographic, um grupo de cientistas internacionais e pesquisadores da IBM vão coletar amostras genéticas, analisar os resultados e elaborar relatórios a respeito das raízes genéticas dos seres humanos contemporâneos.
Com patrocínio da Waitt Family Foundation, os cientistas vão montar dez centros espalhados pelo mundo. Espera-se que o projeto revele detalhes a respeito da história da migração global dos seres humanos e que leve a uma nova abordagem das conexões e diferenças que compõem a espécie humana.
O banco de dados público resultante do trabalho abrigará uma das maiores coleções de informações genéticas acerca da população humana jamais reunida e servirá como fonte de pesquisa sem precedentes para geneticistas, historiadores e antropólogos.
A renda proveniente da venda dos Kits de Participação Genográfica vai ajudar futuras pesquisas de campo e financiar projetos educativos e de preservação cultural entre os grupos nativos participantes.

segunda-feira, novembro 28, 2005

FNB e Não PIB, PNB ou Renda Percapita

Um grupo de economistas japoneses defendeu recentemente que o seu país deveria preocupar-se menos com o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) e inspirar-se no exemplo do Butão, um pequeno reino dos Himalaias, que mede o seu progresso com base num outro tipo de indicador: a Felicidade Nacional Bruta (FNB). "O Japão tem muito que aprender com o Butão nesta matéria", afirmou Takayoshi Kusago, ex-economista do Banco Mundial e professor da Universidade de Osaka, durante o simpósio subordinado a este tema, organizado em Tóquio no início de Outubro.
Apesar de o PIB do Butão ser de apenas 500 milhões de dólares, quase nove mil vezes inferior ao do Japão (4,4 milhões de dólares), desde 1970 que o pequeno reino budista se preocupa, sobretudo, com o crescimento do índice que mede a felicidade individual dos cidadãos. A "FNB" leva em conta fatores como o desenvolvimento socioeconômico duradouro e eqüitativo, a preservação do meio ambiente, a conservação e promoção da cultura e a boa governabilidade. "Em busca de um modelo de desenvolvimento próprio, o Butão não encontrou qualquer índice que estivesse de acordo com os valores e aspirações do país, constatando que o mundo estava dividido entre nações ricas e em nações pobres", explicou o economista butanês Karma Galay.
Os economistas japoneses admitem que no que diz respeito ao índice de FNB, os progressos do Butão são muito superiores aos do Japão, onde a taxa de suicídio é uma das mais elevadas do mundo e não raramente ocorrem mortes por excesso de trabalho. Os economistas destacaram ainda o fato de as crianças do Butão serem praticamente especialistas em questões de meio ambiente, matéria que, na opinião de Shunichi Murata, professor da Universidade Kansei Gakuin, é "muito melhor do que se ensina geralmente aos meninos japoneses"

domingo, novembro 27, 2005

Armazenar CO2 debaixo da terra pode conter efeito estufa, diz estudo

Armazenar dióxido de carbono (CO2) debaixo da terra pode ser uma técnica promissora na luta contra o efeito estufa. É o que diz um estudo divulgado hoje pela AIE (Agência Internacional de Energia) durante a Cúpula do Clima, em Buenos Aires.A idéia é "prender" o gás no subterrâneo, evitando que ele seja liberado para a atmosfera e continue a aquecê-la. A agência preconiza que se multipliquem por cinco os orçamentos para pesquisa dedicados a esta tecnologia, de modo a atingirem US$ 500 milhões por ano em escala mundial.Ao apresentar o trabalho, o diretor executivo da AIE, Claude Mandil, lembrou que as emissões mundiais de CO2 aumentarão 62% entre 2000 e 2030 se não houver novos esforços para reduzir as emissões dos gases-estufa.A técnica poderia chegar à fase industrial a partir de 2020 e ser utilizada em grande escala na segunda metade do século 21 até se tornar obsoleta com a generalização dos sistemas energéticos que não emitem CO2, como pilhas de combustível e sistemas que usam o hidrogênio, diz a agência.A AIE mencionou uma centena de projetos em curso ou em estudo em todo o mundo para armazenamento de C02, mas apenas dois de envergadura.No Mar do Norte, a companhia norueguesa Statoil capta o CO2 de uma jazida de gás natural e injeta-o no fundo do oceano, e em Wayburn, oeste do Canadá, o CO2 proveniente de uma central de gaseificação de carvão é transportado por um gasoduto e injetado em uma jazida de petróleo.Em conjunto, estes projetos só permitirão armazenar 100 milhões de toneladas de CO2 por ano até 2015, quando o potencial explorável até 2030 permitiria reter três vezes mais dióxido de carbono, segundo a agência.A tecnologia será testada pelo setor elétrico, segundo a AIE, com a construção até 2015 de dez grandes centrais térmicas dotadas de capacidade de captação e armazenamento de CO2 nas proximidades.

quinta-feira, novembro 24, 2005

Viva o jeito "slow" de ver a vida

Há atualmente na Europa um grande movimento, chamado SLOW FOOD. A Slow Food International Association – cujo símbolo é um caracol, tem a sua sede na Itália, e prega, entre outras coisas, que as pessoas devem comer e beber devagar, saboreando os alimentos, “curtindo” a sua degustação no convívio com a família, com os amigos, sem pressa e com qualidade. A idéia é a de se contrapor ao espírito do FAST FOOD e tudo o que ele representa como estilo de vida, em que o americano "endeusou". A surpresa, porém, é que esse movimento SLOW FOOD serve de base a um movimento mais amplo chamado SLOW EUROPE, como salientou a revista Business Week na sua última edição européia. A base de tudo, está no questionamento da "pressa" e da "loucura" gerada pela globalização, pelo apelo à "quantidade do ter" em contraponto à qualidade de vida ou à "qualidade do ser".
Segundo a Business Week, os trabalhadores franceses, embora trabalhem menos horas, (35 horas por semana) são mais produtivos que os seus colegas americanos ou ingleses. E os alemães, que em muitas empresas instituíram a semana de 28,8 horas de trabalho, viram a sua produtividade crescer nada menos que 20%. Esta chamada "slow atitude" chamou a atenção do mundo inteiro, inclusive dos americanos, adeptos e apologistas do "Fast" (rápido) e do "Do it now" (faça já).Portanto, esta "atitude sem-pressa" não significa, nem fazer menos, nem menor produtividade. Significa, sim, fazer as coisas e trabalhar com mais "qualidade" e "produtividade" com maior perfeição, atenção aos pormenores e com menos "stress". Significa retomar os valores da família, dos amigos, do tempo livre, do lazer, das pequenas comunidades, do "local", presente e real, em contraste com o "global" - indefinido e anônimo.
Ser “Slow” não significa lerdeza, mas a retomada dos valores essenciais do ser humano, dos pequenos prazeres do quotidiano, da simplicidade de viver e conviver. Significa um ambiente de trabalho menos coercivo, mais alegre, mais "leve" e, portanto, mais produtivo onde os seres humanos, felizes, fazem com prazer, o que sabem fazer de melhor.
Portanto, sejamos “Slow”.
Aconselho aos interessados que visitem o site: www.slowfood.com

terça-feira, novembro 22, 2005

Natureza


Homem caminha com seu cãozinho em meio à neve, a temperatura estava em torno de 1ºC, na cidade de Weilheim, a 70 km de Munique, na Alemanha. Isso é que é vontade de caminhar com seu cachorrinho. Mundo estranho esse né!

Índios protestam e fecham a BR-174

Um grupo de indígenas da etnia Macuxi que vive nas proximidades da maloca Três Corações fechou a BR-174, no KM 600, sentido Pacaraima, mais conhecido por posto 100. Segundo a Polícia Rodoviária Federal os índios estão revoltados desde que uma criança da etnia foi atropelada naquele ponto da rodovia semana passada.
O objetivo do movimento é para chamar a atenção da sociedade sobre a inércia das autoridades que não tomam medidas para evitar os constantes acidentes de trânsito que ocorrem no local. Segundo o tuxaua e vereador, Carlos Alberto, já foram contabilizadas naquele trecho seis mortes de estudantes. De acordo com o policial rodoviário Bruno Perrota, a polícia está desde 8h negociando a liberação da estrada, mas foram colocados pneus incendiados no meio da pista, o que está provocando pânico nos motoristas.

sexta-feira, novembro 18, 2005

Foto: Judeus X Palestinos


Palestino corre após lançamento de gás lacrimogêneo durante protesto na vila de Bilinm, Cisjordânia. A manifestação pede o fim da construção do muro que separa os territórios palestino e israelense. Essa foto é maravilhosa, pois demonstra a brutalidade e os aspectos de ficção que esse confronto tem gerado.

segunda-feira, novembro 14, 2005

Zygmunt Bauman

Aos interessados em entender o mundo atual, com suas mazelas e problemas, recomendo o novo livro de Zygmunt Bauman, "Vidas Desperdiçadas" da Jorge Zahar Editor (2005). Bauman é um brilhante sociólogo polonês que tem dedicado atenção especial aos problemas da pós-modernidade. Entre seus livros mais conhecidos e publicados no Brasil destacam-se: Amor Líquido; Globalização: as conseqüências humanas; o mal-estar da pós-modernidade; modernidade líquida e modernidade e holocausto. Um grande autor e uma grande leitura.

sexta-feira, novembro 11, 2005

Perseguição

Segue um texto de Michel Foucault publicado em 1985 na Folha de São Paulo, portanto com mais de 20 anos de idade, mas cuja inteligência permanece intocada
A perseguição é mais ou menos como o amor: não precisa de reciprocidade para ser verídica. A perseguição, creio, não consiste em ter perseguidores mas, antes, em ser perseguido. Experiência irredutível e autônoma, no sentido de que prescinde muito bem dos outros. No fundo, não precisamos dos outros para sermos perseguidos. Claro, o rosto de outrem se contrai, os outros estão extremamente próximos, sem nenhuma distância, iminentes, debruçados sobre suas vítimas. E, no entanto, na experiência da perseguição, não é isso o essencial. Ser perseguido é ter uma certa relação com a linguagem. É não poder usar a primeira pessoa, não poder dizer eu, sem sentir esse eu como aberto, como fraturado pelos outros, por eles, por todos esses eles que me cercam. Ser perseguido é não poder falar sem que essa fala escape àquele que fala, fuja ao seu controle e, girando ao redor de si mesma, se volte contra ele, pronunciada agora por um outro, pelos outros. Ser perseguido é falar num mundo absolutamente silencioso, onde ninguém, onde ninguém responde; mas, inversamente, logo que paramos de falar e nos empenhamos um pouco em ouvir, escutamos nossas próprias palavras, refluindo até nós, confiscadas pelos outros, metamorfoseadas e, agora, hostis e letais. O perseguido ouve o silêncio do mundo — mas um silêncio todo murmurante de palavras que são o avesso de sua própria linguagem.
Fragmento radiofônico, transcrito de uma emissão da "France Culture" de 30/6/84 e traduzido por MICHEL LAHUD. Publicado na Folha de S.Paulo, domingo, 21 de abril de 1985

Angeli


Como sempre Angeli retrata coerentemente a insensibilidade das elites locais com os nossos problemas diários. Muitas vezes as pessoas se preocupam com problemas distantes do nosso país e esquecem a miséria cotidiana em que vive a maior parte do nosso povo.

terça-feira, novembro 08, 2005

As ruas de Paris

O turista eventual não presta atenção nas Cités da Escuridão conforme ele segue do aeroporto para a Cidade das luzes. Mas elas são grandes e importantes – e o que o turista encontraria nelas, caso se desse ao trabalho de visitá-las, ia horrorizá-lo.Uma espécie de anti-sociedade cresceu nelas – uma população que busca o sentido da vida no ódio que sente por aquela outra sociedade francesa, "oficial". Esta alienação, esta vasta desconfiança é a maior que encontrei em qualquer outro canto do mundo, inclusive nas grandes favelas negras da África do Sul no Apartheid. Ela está à mostra no rosto dos jovens, a maioria prematuramente desempregada, que circulam por entre seus prédios. Quando você se aproxima para conversar com eles, suas expressões imutáveis não acusam o reconhecimento da humanidade compartilhada; eles não fazem um gesto de cortesia social. Se você não é um deles, você está contra eles. [...]Quando agentes da França oficial vêm às cités, os moradores atacam. A polícia é odiada. Um jovem malaio, que acredita não ter emprego na França por conta da cor de sua pele, descreveu como a polícia sempre chega preparada para o ataque, seus cacetetes à mostra – preparados para bater em qualquer um que se aproxime, não importa quem ou se é inocente de crime – antes de retornar à segurança da delegacia. A conduta da polícia, ele disse, explica porque os moradores jogam coquetéis Molotov contra eles de suas casas. Quem toleraria este tratamento vindo de uma police fasciste? [...]Antagonismo contra a polícia pode ser compreensível, mas a conduta destes jovens moradores das cités contra os bombeiros que vêm salvá-los de incêndios que eles mesmos começaram mostra o nível de profundidade de seu ódio pela sociedade oficial. Eles recebem os bombeiros (cujo lema é sauver ou périr, salvar ou morrer) com coquetéis Molotov e pedras quando eles chegam para sua missão, carros blindados freqüentemente têm de proteger os caminhões de bombeiros.
O título do artigo de Theodore Dalrymple é Os bárbaros às portas de Paris. Muitas vezes perturbador, às vezes francamente conservador. Outras tantas parece incrivelmente objetivo.
Retirado de No minimo Weblog

A Internet Segundo Manuel Castells

Professor de sociologia na Universidade de Berkeley, Califórnia, EUA, Manuel Castells ocupa hoje o cargo de diretor de pesquisa em uma Universidade virtual mundial, o Internet Interdisciplinary Institute de Barcelona. Essa experiência pioneira mobiliza 20 mil estudantes em 15 países para cursos unicamente pela Internet.
Le Monde - Em seu livro anterior, 'A Era da Informação', o senhor mostrou como nossas sociedades se organizam em redes. Hoje o senhor dedica toda uma obra à Internet. Por quê?
Manuel Castells - As banalidades e as falsas idéias que circulam na web me irritam. Dispomos hoje de elementos suficientes para demonstrar que a web não isola e tampouco é instrumento do poder ou do mundo dos negócios. Ao contrário. É espaço descentralizador e cidadão. A Internet é fenômeno econômico, social e político, mas não é tecnologia que traga uma solução global para os problemas da humanidade nem um sistema que crie desigualdades sociais.

Le Monde - O senhor insiste no 'espírito hacker' que marcou os primeiros anos da Internet. O que resta dessa cultura?
Manuel Castells - Quando falo 'hackers', refiro-me aos apaixonados por informática que inventam e inovam por prazer, e não 'crackers' que praticam o mal. Creio que restam muitíssimas coisas da cultura original da Internet. O próprio funcionamento da web, por exemplo, ainda é feito com programas de código aberto criados por essa comunidade. Dois terços dos servidores do mundo utilizam o sistema Apache, desenvolvido e mantido por uma rede cooperativa de informáticos. Ao contrário, as práticas da Microsoft me parecem avessas a essa cultura. A Microsoft é uma empresa genial na comercialização, sem inovações. Mas o que me parece mais fundamental é que a 'cultura hacker' hoje impregna grande parte da sociedade. Ela se difunde junto às novas gerações e não só nos campos tecnológicos. As organizações não-governamentais são boa ilustração disso. Elas utilizam capacidades de inovação formidáveis para deter a pobreza, vencendo o peso tecnocrático dos governos. Quanto mais uma sociedade é informatizada e dá economia do conhecimento, mais importante é sua capacidade de inovar no interior do sistema, com meios criativos. Essa é a cultura herdada da ética dos hackers.

Le Monde - Como o grande público se apropria da Internet e o que ele, por sua vez, traz para a rede?
Manuel Castells - A pergunta que se deve sempre colocar é a seguinte: uma tecnologia, sim, mas para fazer o quê? Nisso a Internet não difere das outras grandes tecnologias da história. Ela se difunde, portanto, mais depressa nos meios que a utilizam. Mas uma técnica se torna instrumento importante de práticas sociais somente quando a sociedade em seu conjunto tem necessidade dela para avançar. Hoje as pessoas constroem a web à sua imagem. É uma baderna, pois tudo coexiste na Internet: utilizações sociais, expressões políticas, rede de sociabilização pessoal, pesquisa de informações, movimentos associativos, mas também propaganda nazista, pedofilia e pornografia. Isso preocupa os políticos, pois esse espaço não pode ser totalmente controlado. Mal pode ser reprimido. O grande público tem, portanto, papel a exercer em seu desenvolvimento. Aliás, ele não se privou disso. Os internautas realmente produziram os bate-papos, os grupos de notícias, os fóruns... Os leilões online, a arte digital ou o download de música foram inventados, dessa maneira, e depois adotados por empresas.

Le Monde - O recente Fórum de Porto Alegre no Brasil mostrou as premissas de uma sociedade civil mundial capaz de se mobilizar por grandes causas. A Internet tem um papel significativo nesse processo?
Manuel Castells - Vemos surgir nesse momento os embriões de uma sociedade civil planetária. O papel da rede mundial é essencial, pois permite a existência em suas identidades locais de pessoas que vêm de culturas e horizontes diferentes. Existe uma sociedade civil que se estrutura melhor em nível mundial do que nacional. Hoje o interesse do público por problemas mundiais como os direitos humanos ou as questões ambientais fez surgir uma série de redes e de intervenções sobre as estruturas e as instituições que determinam a vida das pessoas. O interessante é que a sociedade civil tem por alvo o Estado para tentar obter mudanças em suas condições de vida. Ela não tem ponto de referência em um Estado global. Ela passa, portanto, pelos meios de comunicação que estão à sua disposição. As mídias, mas também a Internet são muito úteis, pois através delas os atores da sociedade civil criam uma sensibilidade que indiretamente influencia as instituições políticas. É assim que a Internet se transformou hoje em uma esfera política que não era antes.

Le Monde - Apesar dessa apropriação da web por um número crescente de internautas, o tema da divisão digital nunca foi tão importante. Por quê?
Manuel Castells - Todo mundo deveria ter direito a utilizar a Internet e ninguém deveria ser penalizado por questões de geografia ou de dinheiro. Além dessas considerações, há outros elementos que fazem que a divisão digital subsista. A rapidez na Internet é um deles. A maneira como os que estão na Internet molda a rede à sua imagem é outro. Quanto mais demorar a democratização da Internet, mais a web se desenvolverá em torno de valores que não são os do conjunto da sociedade. A difusão da Internet sobre o conjunto do planeta exigirá forte ação dos Estados, com ações públicas nacionais e internacionais.
As diferenças culturais, financeiras e infra-estruturais hoje são tais que podemos ter um terço do planeta estruturado ao redor da Internet e dois terços excluídos, com tudo o que isso significa em termos de acesso à informação ou aos recursos empresariais. O desenvolvimento da rede, que era exponencial, hoje chega ao seu limite.

(Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves) (Le Monde, Uol.com/Mídia Global, 1/6)